O presente artigo conta com citações e textos extraídos do magistério da Igreja Luterana nesses últimos 500 anos, desde que não estamos mais em comunhão com o Bispo de Roma. Procurei aqui trazer citações de diferentes e importantes teólogos de diferentes períodos.
“sola Scriptura canonica est regula fidei.”
Santo Tomás de Aquino, Super Evangelium S. Ioannis Lectura, cap. 21, lect. 6, n. 2656
O testemunho de toda a santa Igreja cristã [...] deve por si só ser suficiente para que permaneçamos neste artigo e não demos ouvidos nem toleremos qualquer espírito sectário contra ele. Pois é perigoso e terrível ouvir ou crer em algo contrário ao testemunho, à fé e à doutrina concordes de toda a santa Igreja cristã, que desde o princípio, por mais de mil e quinhentos anos, tem sustentado isso unanimemente em todo o mundo.
Martinho Lutero, Carta ao Duque Alberto da Prússia (1532)
O leitor apressado leu a citação de Santo Tomás e logo pensou: mais um protestante cometendo anacronismo. Espere um pouco, caro leitor. Anacronismo é justamente o que desejo refutar aqui ao longo deste artigo.
Não creio no Sola Scriptura. E por que? Porque sou luterano. E luteranos não crêem nisso. Eu poderia definir minhas crenças com essa famosa expressão latina? Sim, poderia. Tomás de Aquino a utiliza, e ele não parece ter sido o único a se valer dessas palavras ao longo desses dois mil anos de história da Igreja.
É verdade que Lutero contestou diversas autoridades em seu tempo. É verdade que Lutero chega em alguns momentos a contestar autoridades que não lhe cabia contestar (como quando ele se levanta contra a autoridade divina dos bispos). Contudo, não foi esse princípio que ficou consignado na Confissão Luterana, isto é, a Confissão de Augsburgo de 1530. Nela encontramos os princípios norteadores da Rnovação Evangélica ou Luterana da Igreja. Essa renovação nem sempre foi bem-sucedida, mas é necessário distingui-la dos próprios erros cometidos por Lutero. A Confissão Luterana não é a vida ou os escritos de Martinho Lutero (embora seu catecismo menor faça parte do magistério infalível da Igreja). Tampouco a Igreja Luterana é uma igreja fundada por Lutero ou fundamentada na interpretação que Lutero realizou da Bíblia. Aliás, o nome “luterana” é puramente acidental e adiáfora - o que se demonstra pelo fato de que muitas de nossas jurisdições nem se chamam assim.
Feitos os devidos esclarescimentos, deixe-me ser franco. Lutero nunca negou, por princípio, a infalibilidade da Igreja:
Depois dos Apóstolos, portanto, não se deve atribuir a ninguém esta prerrogativa — a de não poder errar na fé — senão somente à Igreja universal.
Martinho Lutero, Teses sobre a Fé e a Lei (1535), tese 61.
A Igreja não pode errar. Papas podem. Bispos podem. Dioceses inteiras podem. Mas qualquer expressão universal da Igreja - como um concílio verdadeiramente ecumênico - não pode errar. Se a Igreja pudesse errar, então a Bíblia também poderia, uma vez que foi a Igreja quem confirmou e ratificou o próprio cânon das Escrituras Sagradas.
Mas se a Igreja é inflível, de onde vem então o Sola Scriptura? Ora, a acepção ortodoxa da expresão “Sola Scriptura” diz respeito à fonte material da teologia. A Igreja não conhece outra matéria sobre a qual ela possa trabalhar em seu ofício teológico. Ao longo de dois mil anos, todos os grandes teólogos da Igreja se debruçaram sobre a Escritura como fonte material de seu labor teológico, de tal forma que a Tradição Apostólica nada mais é do que a Escritura pregada e transmitida à posteridade. É nesse sentido que alguns luteranos ainda empregam essa expressão (embora nós na SELC1 a evitamos), como ensina Dom Andrés Põder2:
A expressão “fé bíblica” ou “somente a Bíblia” também pode ser empregada na Igreja, e Lutero a emprega com frequência e legitimamente. Nesse caso, porém, tem-se a clara consciência de que ela jamais pode significar outra coisa senão a fé da Igreja, que, tanto em sua forma escrita como na tradição viva, chega até nós, por meio do magistério, desde os fundamentos da Igreja antiga (cf. Epítome da Fórmula de Concórdia). Essa fé cada um pode encontrar por si mesmo na Bíblia. Um número cada vez maior de leitores da Bíblia, inclusive entre os que pertencem às congregações das igrejas livres, chega à compreensão dessa verdade e se une à Igreja Ortodoxa, à Católica ou — o que, em nossas circunstâncias, é mais compreensível — à Igreja Luterana. Essa é a obra da própria Palavra de Deus, que não volta vazia.
Dom Andrés Põder, Caminho para a Fonte, capítulo II.
Ou seja, para nós, não há qualquer oposição ou mesmo separação entre Escritura e Tradição com “T” maiúsculo, assim como não pode haver qualquer separação entre Escritura e Igreja, como bem expressa o Bispo Gustaf Aulén3:
Nos tempos modernos, tem-se afirmado que é artificial até certo ponto a distinção estabelecida entre Escritura e tradição, uma vez que a Escritura nada mais é do que um registro da tradição primitiva da Igreja. Do ponto de vista histórico, essa interpretação é, sem dúvida, correta. A verdade é que a Igreja não foi fundamentada na Escritura, isto é, no Novo Testamento, mas que, ao contrário, a reunião e canonização desses documentos foi obra da Igreja.
Gustaf Aulén, A Fé Cristã, ASTE 2002, p.82.
É claro, todavia, que a Escritura possui um atributo que nenhum outro escrito possui, a não ser por participação ou mediação da própria Escritura:
O que compreende a θεοπνευστία4 (inspiração divina) da Sagrada Escritura?
Resposta. Trata-se de um concurso especialíssimo e absolutamente extraordinário do Espírito Santo, pelo qual ele não somente moveu os santos homens de Deus a escrever, mas também, durante o próprio ato da escrita, os dirigiu de tal maneira que não poderiam ter escrito outras coisas, nem com outras palavras, nem em outra ordem, senão aquelas que o mesmo santíssimo Espírito de Deus lhes sugeriu e inspirou; de modo que essa Escritura deve ser considerada não humana, mas verdadeiramente divina (2 Tm 3.16; 2 Pe 1.21; 1 Ts 2.13; Mt 10.19-20).
Jacobus Benzelius5, Repetitio Theologica, Art I, qIII.
A Escritura foi literalmente soprada por Deus. É isso que a própria Escritura diz sobre si mesma. É isto que quer dizer θεοπνευστία (theopneustía). Nenhum outro escrito da Igreja possui tal atributo, e por isso mesmo a Escritura é aquilo de mais católico e apóstolico que a Igreja possui. É nesse sentido que o Bispo Benzelius descreve a Escritura Sagrada como “verdadeiramente divina”. Contudo, o mesmo Benzelius diz que os símbolos da Igreja Luterana “são mediadamente divinos (mediate sunt divini) e, por isso, acolhidos pela Igreja” (Repetitio Theologica, Art I, qXIII). Isto é, tanto os credos ecumênicos quanto a Confissão de Augsburgo são divinos. Eles participam do caráter divino das Escrituras porque (quia) testemunham (tradição) o seu conteúdo.
Podemos expressar isso simplesmente com os termos “norma normans” (norma que rege) e “norma normata” (norma regida)? Essa é uma bela tentativa de elucidar a relação entre a Bíblia e Tradição, mas ela ainda fica a desejar. Ela não consegue expressar plenamente a união indissolúvel entre ambas. A Tradição não é uma segunda regra ou norma que pode ou não existir. Ela precisa existir, a não ser que a Igreja tenha falhado. E se a Igreja falhou, então tudo falhou, incluindo as Escrituras. Por isso Benzelius pode definir no preâmbulo de sua obra que a teologia histórica pode “demonstrar a conservação ininterrupa da verdadeira doutrina e da verdadeira sucessão da Igreja” (Repetitio Theologica, I, qXI).
Não desejo me delongar além do necessário, mas aqui poderíamos discutir sobre a hierarquia das tradições. Sobre a diferença entre dogma, ensino ordinário do magistério e teologúmeno ou opinião teológica. Por exemplo, pode acontecer (para a nossa tristeza) que o magistério de nossos dias ensine algo que entre em contradição com a Tradição da Igreja. Nesse caso, trata-se de um erro, que pelo seu próprio caráter anti-universal (anti-católico) deve ser rejeitado (óbviamente, com a devida reverência que se deve prestar aos bispos da Igreja e com o devido processo eclesiástico, que as vezes pode durar por muito tempo). Este parece ser o caso do ensino sobre o direito divino dos bispos, que foi proposto pelos Reformadores depois do ano de 1530. A negação do direito divino dos bispos claramente contraria não apenas a Confessio Augustana em seus artigos XIV e XXVIII, como também a Tradição Apostólica da Igreja - ainda que naquela época houvesse mais dúvidas sobre este assunto do que em nossos dias, e sobretudo por culpa do organismo papal que foi se agigantando depois do Grande Cisma.
A autoridade e a força da tradição na Igreja Luterana não poderia ser tão belamente expressa como Dom Laurentius P. Gothus6 deixou consignado em sua Ethicae Christianae:
O Catecismo apresenta-nos a regra segura segundo a qual todos os homens devem ordenar a sua vida… É a pedra de toque pela qual todas as doutrinas devem ser examinadas, julgadas e corrigidas.
Dom Laurentius Paulinus Gothus, Ethicae Christianae, Pars Prima, III, 2.
O termo “Catecismo” que é definido pelo mesmo Laurentius Gothus como “instrução oral… transmissão verbal” (ibid. II, 9), é dito ser a “a pedra de toque pela qual todas as doutrinas devem ser examinadas, julgadas e corrigidas”. E qual é o conteúdo do Catecismo? É o conjunto daquilo que a Igreja vem transmitindo infalivelmente e constantemente ao longo de séculos: a Lei nos Dez Mandamentos desde o Antigo Testamento, o Credo dos Apóstolos, o Batismo como meio de regeneração e de entrada na Igreja, A Santa Ceia como sacramento da presença real do Sacrificado, o Ofício das Chaves (Ministério Apostólico) e a Confissão para que as pessoas em todos os tempos pudessem recuperar a comunhão da Igreja e o estado de graça, e finalmente os deveres de estado. Tudo isso constitui a Tradição primordial e mais basilar da Igreja, que até mesmo uma criança é capaz de assimilar. Essa Tradição ou Catecismo é infalível - não pode errar. Ainda que o Catecismo Menor de Lutero padeça de certa clareza em alguns pontos, como na explicação do 3º mandamento, ele possui o caráter da infalibilidade, pois repete aquilo que sempre e em todos os lugares foi ensinado - expressão de fé da Igreja universal (nos termos do próprio Lutero).
Por fim, quero finalmente responder à pergunta que nos interessa e que se relaciona com o título do presente artigo: Qual o lugar da Bíblia na Tradição Evangélica? Eu não poderia dar melhor resposta que o seguinte excerto de Dom Andrés Põder:
Quando ocupa seu devido lugar na vida da fé, a Bíblia está intimamente unida a toda a compreensão desenvolvida ao longo da história da Igreja, às decisões dos concílios ecumênicos, aos símbolos de fé da Igreja antiga e ao magistério da Igreja. Por isso, também se diz, na síntese da Confissão da Igreja Luterana: “Esta é, em linhas gerais, a suma de nossa doutrina. Nela nada se encontra que divirja da Bíblia, da Igreja Católica ou da Igreja Romana, conforme se pode verificar nos escritos dos Pais da Igreja” (Confissão de Augsburgo XXI, 2).
“Como Igreja, confessamos”, disse o Dr. Martti Simojoki7, por muitos anos arcebispo da Finlândia, em uma conferência proferida no Instituto de Teologia da EELK por ocasião do recebimento de seu título de doutor honoris causa (1982), “que somos parte da Igreja una, santa, católica e apostólica. Representamos uma tradição que nos liga, através dos tempos passados, a todos aqueles que compartilham a mesma herança comum da cristandade indivisa. Ao mesmo tempo, no presente, unimo-nos a todos aqueles que, segundo a Bíblia e a confissão de fé comum da Igreja, confessam sua fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo. A tradição da Igreja é, para nós, luteranos, insubstituível.”
É um fato histórico que a Bíblia é um grande dom de Deus à Igreja e por meio da Igreja. Por meio dela e a respeito dela, a Igreja testemunha que ela é a verdade e de que modo ela é a verdade. A Bíblia, por sua vez, ajuda a Igreja a examinar-se e a corrigir-se. Ela é como a bússola no navio da Igreja.
Dom Andrés Põder, Caminho para a Fonte, capítulo II.
FINIS
Siberian Evangelical Lutheran Church ou Igreja Evangélica Luterana da Sibéria (Igreja na qual sirvo como diácono em sua administração apostólica no Brasil).
Andrés Põder foi arcebispo de Tallinn (Estônia) entre 2005-2014. A principal Igreja apostólica da Estônia é a Igreja Evangélica Luterana da Estônia (EELK).
Gustaf Aulém foi bispo de Strängnäs entre 1933 e 1952, na Igreja da Suécia. A Igreja da Suécia, como o próprio nome sugere, é a principal Igreja apostólica da Suécia - naquela época ainda mais do que hoje.
θεοπνευστία (theopneustía): literalmente, “inspiração divina” ou “sopro divino”; termo derivado de θεόπνευστος (“inspirado por Deus”, literalmente “soprado por Deus”), empregado em 2 Tm 3.16. Aqui designa a inspiração da Sagrada Escritura pelo Espírito Santo.
Jakob Benzelius foi Arcebispo de Uppsala entre 1644-1647, e autor da última dogmática luterana/sueca redigida segundo o método escolástico.
Laurentius Paulinus Gothus foi Arcebispo de Uppsala entre 1637 e 1646.
Martti Simojoki (1908–1999) foi um teólogo e bispo luterano finlandês, arcebispo de Turku e da Finlândia entre 1964 e 1978. Figura de destaque da Igreja Evangélica Luterana da Finlândia no século XX, participou ativamente do diálogo ecumênico e das relações entre as Igrejas luteranas.


Muito incrível padre.
Li o texto inteiro com bastante atenção e vi que o senhor disse que rejeita o Sola Scriptura no sentido comum, mas aceita numa acepção restrita de "fonte material". Nessa sua acepção, existe algum cenário concreto, seja histórico ou hipotético, em que a Escritura corrigiria a Tradição, ou a autoridade sempre corre só num sentido: a Tradição interpretando e aplicando a Escritura, sem nunca ser corrigida por ela? Se a resposta for "nunca a Tradição autêntica erra", então em que sentido a Escritura ainda é norma de algo, e não apenas fonte de um sistema que já se autovalida?